terça-feira, 1 de abril de 2014

Jantar

Ele era bonito. Cheio de perfume caro e cheio de formosuras. Ele me lembrava um quadrado. Não o adjetivo quadrado que qualifica-o como chato. Mas o quadrado substantivo. Um queixo quadrado, ombros quadrados, nariz com uma mini quadradinho na ponta. Ele tentava agradar à todos. E conseguia. Era engraçado, e me servia de mais comida. Infinitamente educado e altamente diplomático. Em suas lentes não havia uma única imperfeição. Ele tinha uma mulher, loira. Uma loira linda de cabelos curtíssimos e olhos azuis. Com uma postura sempre correta e que não fazia um movimento que lembrasse que poderia estar confortável naquela cadeira. Eles combinavam, ele com sua beleza estonteante morena, profunda e definida. E ela com uma beleza que algum dia, provavelmente, foi leve, frágil. Já a loira, me lembrava um lenço branco, bem fininho, quase transparente. Maleável. Mas essa fragilidade foi corrompida com o tempo, por ele. Pelo quadrado moreno. Na outra cadeira, tinha uma mulher meio esquisita, meio , digamos, desprezível. Ela fazia brincadeiras de mal gosto e piadas sem graça. Era baixinha, com umas pernas bem finas segurando uma barriga bem desproporcional ao seu corpo. Não tinha delicadeza. Mas no fundo havia uma beleza, bem antiga. Eu achava o quadrado e o lenço lindos. Eles se encaixavam. Assim como uma caixa de presente com um lenço fazendo um laço. Mas essa caixa de presente se desmoronou quando o diplomático moreno e altamente educado, virou para a alvi-beleza e disse quase em cores ” Cala a boca, mulher!”.  E acabou a descrição por que eles se desmancharam dentro de mim, e viraram duas pessoas ordinárias. E nesse momento, eu desejava ficar conversando com a mulher simples, e meio desprezível. 

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