quarta-feira, 21 de maio de 2014

A Decadência do Coração nos Tempos Modernos

Nestes ruins tempos de material e nauseante industrialismo, a fase do coração é curta, o amor vem temporão, e como que apodrece antes de sazonado. De toda a parte, aos ouvidos do mancebo vem a soada do martelar da indústria. A sociedade, aparelhada em oficina, não dá por ele, se o não vê a labutar e mourejar no veio da riqueza. Títulos, glória, homenagens, regalos, as feições todas da festejada máscara, com que por aqui nos andamos entrudando uns aos outros, só pode ser afivelada com broches de ouro. Dislates do amor empecem o ir direito ao fim. O coração é víscera que derranca o sangue, se com as muitas vertigens o vascoleja demais. Faz-se mister abafar-lhe as válvulas e exercitar o cérebro, onde demora a bossa do cálculo, da empresa, da sordícia gananciosa, e outras muitas bossas filiadas ao estômago, o qual é, sem debate, a víscera por excelência, o luzeiro perene entre as trevas que ofuscam as almas. 

Camilo Castelo Branco, em  Doze Casamentos Felizes (1861)
a dor nas pernas adorna as pernas
de tanto enroscar em suas cobertas tão
ternas
de tanto te amar entre os meus joelhos
roxos
tudo ao contrário, amor, criam paradoxos

e pra falar de avesso é assim que me sinto
quando tu me toma, lento, feito um vinho
tinto
e bêbado de mim tropeça minhas costelas
dança sem vergonha canções agora tão
belas

a nossa ressaca, meu bem, é de não levantar
e a vida vira cama, tonta, de tanto a gente girar
e ali passam horas e dias, tudo de novo
começa
volta a dor nas pernas, os hematomas e a
nossa falta de pressa.

sábado, 3 de maio de 2014

A to Z

de onde a vai pra z
de onde d vai pra s
de onde amassos
viram abraços
e beijos em desejos
de onde travesseiros
viram cheiros
e cigarros desvirtuados
ficam na janela

quinta-feira, 1 de maio de 2014

janelas abertas, fechadas
luzes acesas, apagadas
tem roupa no varal
tem frio
visão minimalista
mais abrangente
futuro obscuro
sem seguro, ela diz
cigarros a cinzas
cinzas a mais cinzas
o que antes era explicável
nada mais palatável
esperança virou fumaça
não vejo sentido algum