terça-feira, 1 de abril de 2014
Dois de Dezembro
Eu odeio sentar naquela cadeira e olhar para as mesmas árvores que eu olhava, sentada na mesma cadeira, às nuvens em seus mesmos horários. Era tardezinha, lá para umas quatro horas e quarenta minutos. Aquela sala tem o mesmo cheiro quando sento naquela cadeira e olho pela janela. Essa cena prioriza os pares, enquanto ele só gostava do ímpar. Do sete para ser mais exata. Só de pensar nessa fotografia eu já repasso tudo que acontece. Posso estar lá pro sul, mas quando penso nessa cadeira e nessa janela, pego um vôo direto pro Rio de Janeiro. Aquilo algum dia foi-se apenas uma cadeira e uma janela, e aquela vista foi apenas uma vista. Não depois do dia Dois de Dezembro. Aos sofrimentos e lágrimas, estávamos sentadas na sala, de luto por um único amor de todas as nossas vidas. Um para todas. Todas para Um (sim, com letra maiúscula no meio da frase). Tomávamos chá, um muito do sem gosto pra ser sincera, com umas bolachas dispensáveis. Quietas. Fingindo que tudo se passou. E os fantasmas da saudade nos apavorando e devorando como um ácido por dentro. Como se não bastasse meus olhos, meu coração era a definição da cor roxa escuro. Ela se arriscou, e com dor e inconsciência, nos questionou sobre o maior dos problemas : a data. Era dia Dois de Dezembro. Um número par. De um um mês par. De um último mês. De um último ano. Foi o pior dos dias. Quando ouviu a resposta e abriu as portas para a realidade, era o aniversário do amado. As lágrimas tomaram conta de seus olhos, não escreverei a palavra novamente, porque elas nunca haviam os abandonado. E foi nessa exata hora, que me fez eternizar o momento da cadeira-janela-nuvens-tarde. Quando vi o sofrimento estampado, colado, massacrado em sua expressão da alma, olhei para a janela, respirei fundo, fiz questão de me sentir presa à cadeira ( sentindo o resto da vivacidade que ainda havia em mim), tinha nuvens lindas no céu. Nuvens laranjas. Da cor daquelas nossas nuvens italianas que diz que vai chover no dia seguinte que só você sabia pronunciar suas raízes tão belamente, por mais que eu tentasse aprender. Eu nunca vou pronunciar o r do seu jeitinho. Porque você não tá mais aqui pra me corrigir. Você também não está mais aqui pra eu te abraçar com aquele cheirinho de madeira. Eu odeio aquela janela. E odeio porque se eu fechar os olhos, eu ainda posso sentir o frescor daquele ventinho batendo no meu rosto e secando a umidade das lágrimas. Aquele frescor que alivia a dor, que faz sua alma pulsar. Eu acho que eu odeio mais ainda aquela cadeira, com aquela mesa, junto com a janela, porque foi lá que eu e a minha irmã, fizemos a sua última festa de aniversário. Foi surpresa. Acordamos às cinco da manhã pra fazer tudo, de um dia Dois de Dezembro. Lembro-me perfeitamente dos seus sorrisos, e dos seus beijos de agradecimento. Eu te amei tanto naquela hora daquele beijo, que eu me foquei tão forte, mas tão forte que eu guardei ele pra sempre no meu peito. Os números ímpares foram aumentando junto com a minha conformidade e aceitação mas não a minha saudade. Ai, essa me dói tanto. Eu amar você. Eu vou escrever errado, pois depois de muitas interrogações em relação ao tempo verbal para usar, eu descobri que eu amei, eu amo, e eu amarei, portanto, eu AMAR você! Um sentimento eterno. E agora, dou risos de saudades.
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